12 de novembro de 2013

Fernando Pessoa


Emissário de um rei desconhecido, 
eu cumpro informes instruções de além, 
e as bruscas frases que aos meus lábios vêm 
soam-me a um outro e anômalo sentido... 
Inconscientemente me divido 
entre mim e a missão que o meu ser tem, 
e a glória do meu Rei dá-me desdém 
por este humano povo entre quem lido... 
Não sei se existe o Rei que me mandou. 
Minha missão será eu a esquecer, 
meu orgulho o deserto em que em mim estou... 
Mas há! Eu sinto-me altas tradições 
de antes de tempo e espaço e vida e ser... 
Já viram Deus as minhas sensações...

2 de junho de 2013

Bruno Tolentino


Nós
         os de cinza e tempo
nós os de olhar barrado
nós os de céus ardendo
e ventos desfigurados
nós os de mito e queda
nós os de mãos atadas
ecos
         desdobrando
                            gritos
mudos mantos desdobrados
nós silenciados muros
de desesperos caiados
nós cegos irmãos em luto
por mundos manietados
nós sonâmbulos
                   remotos
nós vagos
só recordados
os estáticos andantes
escuramente pisados
nós os egressos da sede
diuturnamente velada
nós o exílio de nós mesmos
viva lâmpada apagada
nós entre o infinito e o medo
esparsos
            desencontrados
nós frios
de cinza e tempo
em tempo e cinza
                       encerrados




Penso em Píndaro agora, que também não sabia
se era um modo de ser ou de dizer a ode;
ou na respiração de Whitman, que sacode
interminavelmente folhas sem fim; na fria
resignação de Ovídio, que nunca encontraria
a sílaba final; revejo o velho Auden
abandonando tudo aquilo que escrevia
para maravilhar-se de que afinal o molde,
a forma mais exata, tremesse, fosse ainda
espasmo, mutação… Rilke chamava-o brisa.
Mas volto mais perplexo a ti, rosa de cinza,
roda de luz, Alexandria eterna, linda,
inacabável… Existias? Quem precisa,
quem ousa terminar a ode à estátua infinda?


29 de agosto de 2012

Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.