2 de junho de 2013

Bruno Tolentino


Nós
         os de cinza e tempo
nós os de olhar barrado
nós os de céus ardendo
e ventos desfigurados
nós os de mito e queda
nós os de mãos atadas
ecos
         desdobrando
                            gritos
mudos mantos desdobrados
nós silenciados muros
de desesperos caiados
nós cegos irmãos em luto
por mundos manietados
nós sonâmbulos
                   remotos
nós vagos
só recordados
os estáticos andantes
escuramente pisados
nós os egressos da sede
diuturnamente velada
nós o exílio de nós mesmos
viva lâmpada apagada
nós entre o infinito e o medo
esparsos
            desencontrados
nós frios
de cinza e tempo
em tempo e cinza
                       encerrados




Penso em Píndaro agora, que também não sabia
se era um modo de ser ou de dizer a ode;
ou na respiração de Whitman, que sacode
interminavelmente folhas sem fim; na fria
resignação de Ovídio, que nunca encontraria
a sílaba final; revejo o velho Auden
abandonando tudo aquilo que escrevia
para maravilhar-se de que afinal o molde,
a forma mais exata, tremesse, fosse ainda
espasmo, mutação… Rilke chamava-o brisa.
Mas volto mais perplexo a ti, rosa de cinza,
roda de luz, Alexandria eterna, linda,
inacabável… Existias? Quem precisa,
quem ousa terminar a ode à estátua infinda?